1.6.18

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia



Gramática Expositiva do Chão (Poesia quase toda) – Manoel de Barros

28.5.18

"a atividade literária, no que ela tem de específico como disciplina do espírito, não pode ter outra justificação a não ser iluminar certas coisas para si próprio ao mesmo tempo que elas se tornam comunicáveis para outrem, e que um dos objetivos mais elevados [...] é restituir por meio das palavras certos estados intensos, concretamente experimentados e tornados significativos para serem postos assim em palavras" 



por Michel Leiris
em O convidado surpresa – Grégoire Bouillier

23.5.18

como pienso
       que lo real
       no es en nada real
cómo podría creer
       que los sueños son sueños



Jacques Roubaud y el Monje Saigyo
em Lá cámara escura – Georges Perec

7.5.18

Podes passar uma vida inteira
em companhia de palavras
sem que encontre
a adequada.


Tal como um peixe miserável
embrulhado em jornais húngaros.
Por um lado, está morto,
por outro, não entende
húngaro.



Epigrama – Niels Hav
tradução de Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira

1.5.18

minha faixa laranja em yoga chinesa,
o livro do victor heringer que chegou ao fim,
os textões de facebook.

não me levaram até a praça xv, em março.
embora tudo tenha conspirado para isso,
para que se me entrenhassem as coisas.

no cartaz la beauté est dans la rue,
sempre enxerguei um livro como arma.
ontem descobri que na verdade é um paralelepípedo.

é dia primeiro de maio, e a vez das pedras.

tenho medo de cair de bicicleta na rua, e bater a cabeça em uma.
faz dois anos que não uso meu capacete.
dois anos que mudaram muito.
para os outros já fazem séculos.
eu gostaria de ser salva por coisas gratuitas.

acentuadas as dúvidas, a angústia,
do tempo-abismo sem freio.
antes de desaparecer, eu presto atenção.

transformar a queda livre em potência de criação.


30.4.18

und jetzt, da habe ich schon jahre nicht mehr geträumt. wenn ich geträumt habe, da wahr dass so banal, das ich mich frage warum ich überhaupt geträumt habe. wissen sie, die letzte nacht, da habe ich geträumt, das ein stück papier runtergefallen ist, und ich habe es wieder aufgehoben.

and now, i didn’t dream for years, and when i dream, then it’s just so banal that i ask myself why i’m dreaming at all. what would you know, the other night i dreamt that a piece of paper fell and that i picked it up.



It did happen soon – Annika Eriksson
http://ubu.com/film/eriksson_happen.html

23.4.18

Agora que os estalos da adolescência passaram
e a vida assenta como uma cômoda de mogno

agora que os joelhos estalam quando me levanto
sem mulher, sem filhos, mas com emprego estável
é preciso admitir que não sou poeta.

Embora o meu amor esteja solto no mundo
violento, semicego e ferido no ombro
não sou poeta.

*

Todos me felicitam. Que bom, dizem
vida de poeta é muito difícil.

Logo a gente chega a ser homem
e acaba com as coisas de menino.

A vida afunila.

*

Eu tinha dois, três truques nos bolsos
de calças compradas em shoppings.

Não soube nunca comprar como poeta
a longa espera por um par de sapatos
sentinela no deserto.

Os sapatos são fabricados e os pés dos poetas passam anos se deformando. Até que um dia cabem.
Por isso qualquer roupa parece velha
no corpo de um poeta.
Por isso estão sempre se desculpando
pelas roupas velhas.
Mas em segredo se orgulham.

Embora eu tenha um corpo
que pode ser confundido com o corpo de um poeta
não sou poeta.

Tenho as pernas fortes e os braços magros.
O torso amolecido dos boxeadores
os órgãos de dentro estropiados.

Mas quem me vê nu instintivamente sabe que não sou poeta.

*

Não levantei a mão esquerda em golpe de dançarina de flamenco ao ler Jaime Gil de Biedma para os meus amigos,
embora tudo tenha conspirado para isso.
Para que se me entranhassem as coisas.

Concluo que não sou poeta.

Tenho os dedos frios de um técnico em informática
e sou triste como um técnico em informática
mas não sou tão triste quanto um barbeiro.

Eu li todos os tratados da métrica portuguesa.

*

Assinei dois contratos como poeta
que doravante já não têm validade.
Assinarei um terceiro, como última traição.

Serei perdoado por todos.

*

Doravante vão reinar o olho e a raiva.

As melhores botas para caminhar na areia
os cálculos de longas distâncias
os treinamentos de apneia.

O amor virá até mim como vai aos jornalistas e CEOs, aos sushimen de São Paulo (SP) que vieram do Ceará – ideais porque têm mãos quentes.

*

As partes elegem o Foro da comarca de São Paulo (SP), renunciando a qualquer outro, por mais privilegiado que possa ser, para dirimir todas as questões surgidas quanto à interpretação ou execução deste contrato que não puderem ser resolvidas amistosamente.



Não sou poeta – Victor Heringer

via 'não vá dormir sem mim' de 22.04.2018.
troca poética entre Mayná Quintana e Nataly Callai,
compartilhada todos os dias às onze horas da noite.